O “Jogo” da Austeridade

Quando eu era jovem (não me lembro a idade ao certo mas devia andar no secundário) passei muitas horas entretido com o jogo Simcity. Tratava-se de um “simulador” em que somos responsáveis por gerir uma cidade, tipo presidente da câmara.

O jogo tinha inúmeras variáveis, permitia a contrução de prédios, estradas, escolas, quartéis de bombeiros, esquadras de polícia, centros comerciais, etc.. Tinha ainda catástrofes aleatórias como tornados, terramotos e até podia aparecer o Godzilla para trazer infortúnio e desgraça aos habitantes da cidade gerida por nós.

Como qualquer cidade que se preze, há um orçamento para gerir e que está dependente da contribuição dos habitantes sob a forma de impostos. Todas as infraestruturas construídas têm um custo de manutenção e podem ter mais ou menos recursos alocados com maior ou menor degradação e a consequente insatisfação dos habitantes quando as coisas não correm bem.

Com tanta infraestrutura construída para atrair população e para ter maior retorno financeiro sob a forma de impostos, há uma altura em que se começa a ter problemas de liquidez e o dinheiro cobrado não chega para as despesas. Uma forma de começar a equilibrar o “cash flow” é aumentando os impostos de forma ligeira e tentar limitar as despesas com infraestruturas. Vamos avançando no jogo e como não se resolve o problema vamos aumentando os impostos, a população começa a ficar insatisfeita, começam os tumultos e há mudanças para outras cidades. Depois baixa-se os impostos, aumenta a população, as construções/infraestruturas e repete-se tudo.

Agora mais de 20 anos passados compreendo que o que eu fazia era aplicar austeridade! Quem iria imaginar, muito menos eu, que estava a aplicar uma “medida económica” para ajudar a recuperar as contas da cidade que eu geria?

Comparando com a realidade actual dos portugueses e com o que se está a passar em Portugal, a diferença é quase nenhuma mas isso não faz de mim um génio da economia precoce nem sequer um potencial primeiro-ministro ou presidente da câmara. Trata-se, tal como no jogo, de uma medida de desespero quando não há mais nada a fazer para tentar recuperar a liquidez das contas do país com todos os impactos negativos de destruição da economia e acima de tudo, da destruição da qualidade de vida dos cidadãos que não conseguem fugir à mão pesada do estado sob a forma de aumento de impostos directos e indirectos. Isto para os que têm a sorte de não perder o emprego ou que têm de ter mais que um para manter uma qualidade mínima de vida.

Espero que tal como no jogo Simcity, passado algum tempo o nível de vida volte ao que era antes, os empregos aumentem e que os impostos baixem. E que com a experiência a cada “jogo” das contas do país, as lições anteriores ajudem os governos a antecipar os problemas e a tomarem medidas preventivas para que os efeitos da austeridade não sejam tão severos para a população como estão a ser agora.

Se eu aprendi isto quando era um “jovem inconsciente”, governantes e formados em enconomia também conseguem.

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2 Respostas to “O “Jogo” da Austeridade”

  1. Pedro Veloso Says:

    O SimCity 3000 era mais giro, mas já não tinha GodZillas:\. Tinha UFOs bah😀

  2. farracha Says:

    Eu também joguei o SimCity. Primeiro comecei por ignorar as manisfestações de descontentamento e nos custos de infra-estruturas, depois comecei a aplicar austeridade atrás de austeridade.
    Como austeridade não deu em nada, fui falar com o FMI (Ctrl+Alt+! > Money). Nunca mais tive problemas e deixei de aplicar austeridade ao meu povo!

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